O meu "amigo" taxista ...
Quando se é estrangeiro por estes lados, yabanci, os episódios mais caricatos podem acontecer ! E quando somos muito simpáticos, tudo pode piorar !
Os turcos são pessoas muito acolhedoras, sempre prontas para ajudar, mas conseguem também abusar da nossa simpatia e até da nossa paciência.
Quando vim da Índia, chegámos pela manhã e o Nuno teve de ir directo para o escritório, deixando-me no aeroporto para apanhar um taxi. Se há coisa que não gosto, nem nunca gostei foi de andar de taxi, especialmente distâncias grandes, como é o caso da do aeroporto até nossa casa. Ou cheiram mal ( e aqui quando cheiram mal é a sério !! ), ou são antipáticos, ou são mudos, ... enfim, toda uma série de situações que podem tornar a viagem num pesadelo !
Pasmo dos pasmos, o meu taxista era super simpático, pelo que aproveitei para treinar o meu turco super enferrujado. Com efeito, apesar das aulas que tive, a complexidade desta língua e a quase rara necessidade de a usar tornaram-me preguiçosa e balbuciante.
Mal soube que era portuguesa, lembrou-se dos jogadores portugueses do Besiktas, clube da sua afeição e a partir daí viemos numa animada conversa todo o caminho. Eu estava admirada por conseguir entendê-lo e ele a mim, pois muito pouco ele falava de inglês. Sentia-me orgulhosa da minha proeza !
Contudo, quando tal acontece, refreio um pouco o entusiasmo, pois este induz muitas vezes a mal-entendidos e não há turco que não se pele por uma loira ! No entanto o meu taxista não parecia querer avançar nesse sentido e a meio da viagem ocorreu um episódio estranho mas que me ajudou a relaxar : a mulher telefonou-lhe e, surpreendentemente, passou-me o seu telefone para eu falar com ela. Apanhou-me tão desprevenida que acabei por balbuciar um "nasil siniz" e um "iyigunler", que é como quem diz "como está" e "tenha um bom dia". Como sou uma querida, apesar de estranho, interpretei-o como uma prova de ausência de segundas intenções .... e a conversa continuou até minha casa...
Já à porta de casa esperava-me a situação mais inesperada de todas !! No momento de pagar, entendeu que era boa ideia dar-me o seu número de telefone para quando precisasse de ir para o aeroporto. Pareceu-me lógico e tirei o meu telefone da mala onde gravei o seu contacto. Foi então que me pediu também o meu telefone ! Fiquei tão desarmada que não consegui recusar-lho ! Apesar de sentir que estava a fazer uma estupidez, na altura não fui capaz de negar tal pedido, sempre pensando que nunca o fosse usar.
Infelizmente não foi o que aconteceu, pois na semana seguinte começaram os seus telefonemas e, apesar de nunca ter atendido, durante semanas continuou persistente. Como o número estava gravado, sabia quando não atender mas, ainda assim, a situação começava a irritar-me sobremaneira !! Quando percebi que não ia desistir, decidi fazer algo. Pedi ajuda à Gulden, uma amiga do ginásio, que fingisse ser a proprietária do meu telefone e lhe desse uma ensaboadela à turca por estar a ser constantemente incomodada por um número desconhecido ! Remédio santo !! Ficou tão atrapalhado que pediu muita desculpa à minha amiga e nunca me mais ligou a mim !!
Apesar de lá ter conseguido resolver a situação, ela deu-me que pensar e questionar-me sobre o que me teria levado a um comportamento tão pateta. Acreditava que a principal responsável teria sido a surpresa e o inusitado da situação, contudo sentia que deveria haver mais qualquer coisa que não conseguia verbalizar.
Foi um filme a que fomos assistir há umas semanas que veio reacender a questão e ajudar-me a concretizar o porquê da minha atitude. "The woman with the dragon tattoo " foi tanto a causa para algumas noites atormentadas como também esclarecedor.
O filme é extremamente violento mas também muito bom.
Quase no fim há uma cena fabulosa pela forma como interpreta um determinado comportamento da alma humana. O investigador e personagem principal ( Daniel Craig ) é apanhado a escapar da casa daquele que tinha acabado de descobrir como o presumível suspeito de uma série de crimes horrorosos. O incrível desta cena é que apesar de estar já fora da casa e, portanto, a salvo, acaba por voltar atrás quando aquele o convida para entrar e tomar algo. É o próprio assassino que, minutos depois, tendo-o entretanto aprisionado na sua sala de horrores, faz uma análise interpretativa fantástica. Suspeitando já deste, o regresso do investigador à casa explicava-se por algo, comum a muitos - o medo de ofender os outros ! E esse medo conseguiu sobrepor-se ao outro, bem mais fundado e razoável. Apesar do dramatismo da situação, própria de filme, não estou tão certa da sua apenas ficcionalidade. Creio que muitos teriam repetido a patetice de voltar atrás e creio também que a minha inércia face ao pedido do taxista se prende com isto mesmo. A simpatia que revelara antes impediu-me de o querer ofender, recusando-lhe o meu número.
É nestas alturas que sou levada a repensar na forma ideal de educar os nossos filhos, de conseguir também proporcionar-lhes as armas que inevitavelmente virão a precisar . A preocupação que os pais têm em criar filhos educados tanto os ajuda como impede, por vezes, de reagir mais brutalmente a situações semelhantes. E a medida certa qual é ?
É nestas alturas que sou levada a repensar na forma ideal de educar os nossos filhos, de conseguir também proporcionar-lhes as armas que inevitavelmente virão a precisar . A preocupação que os pais têm em criar filhos educados tanto os ajuda como impede, por vezes, de reagir mais brutalmente a situações semelhantes. E a medida certa qual é ?
E já agora: desde quando é que eles são só o resultado da educação que lhes damos?
Animador, não?
bjos
Avança que vais no caminho certo, só pelo fato de te questionares.
Temos saudades vossas,beijokas
Revejo-te completamente na tua história, com a tua simpatia, bondade e generosidade habituais! Mas não te aflijas, da próxima vez já não vais fazer assim e também já vais, certamente, alertar as tuas filhas para os perigos de se exagerar na preocupação com os outros, nem que seja só contando esta história.
Esta história, aliás, faz-me lembrar uma outra, que não sendo exactamente igual, terá tido também como base a simpatia, a generosidade e o mesmo receio de magoar o outro e que acabou por trazer muita dor ao próprio e familiares.
Portanto, amiga, gosto muito de ti como tu és, quase única, mas espero que esta tenha sido mais uma lição de vida, daquelas que vamos aprendendo a cada dia e que às vezes nos tornam menos boas pessoas, mas que nos ajudam a sobreviver. E que diabo, também não era assim uma ofensa tão grande para a criatura, para a próxima basta dizeres que, em Portugal, as meninas não dão o número de telefone aos meninos, como eu disse ao António quando o conheci….ah, ah, ah!
Muitas, muitas saudades e beijocas
Também tenho imensas saudades de todas vos e já só faltam 4 semanas para vos
Melgar
Bjs